Desertos de notícias e as lições do jornalismo no interior

Edição n°09|Conheça projetos independentes e coberturas de impacto fora das capitais nordestinas

Oi, se cuidando por aí? A gente espera que essa mensagem te encontre com saúde e, se possível, em casa. 

Por aqui, seguimos colhendo projetos e conteúdos instigantes para te informar e também te inspirar. Então, para dar um gás, sugerimos que você ouça 🎧 a música Nordeste ficção enquanto lê. A cantora potiguar Juliana Linhares faz referência ao livro “A invenção do Nordeste”, de Durval Muniz, uma grande fonte de ideias pra gente.

Como prometemos na edição passada, desta vez vamos falar do jornalismo independente que reduz desertos de notícias no interior. Talvez você não saiba, mas o Nordeste é a segunda região brasileira com mais desertos de notícias - lugares onde não há mídia local, segundo o mapeamento do Atlas da Notícia

Quem mora nesses desertos não tem meios confiáveis para se informar sobre sua cidade. Porque é o  jornalismo local que denuncia problemas cotidianos, como a falta de saneamento básico, e cobra ações do poder público municipal. Na pandemia, os jornalistas do território também informam sobre as vagas nos hospitais, a fila da vacinação e acompanham histórias que dão a dimensão humana da crise fora das capitais. 

Se tu pensas que todo jornalismo feito no interior dos estados é ligado às prefeituras ou a grupos políticos das cidades, a gente reuniu  iniciativas sem amarras. Abandone aí os preconceitos e deixe de lado termos gastos, como “rincões”, para falar desses lugares.

Sirva-se! 

Equipe Cajueira

Vozes dos territórios

No município de Pedreiras, no Maranhão, quatro jovens jornalistas criaram um portal independente chamado O Pedreirense. As coberturas são focadas em vozes locais e narram histórias de moradores da região do Médio Mearim. 

O Pedreirense tem origem, diz um dos fundadores, Joaquim Grigório, no entendimento de que a cidade existe para além de uma matéria de poucos minutos no Jornal Nacional. "Nasce da urgência de um jornalismo que enxergue bem mais, que reconheça nossa força”, diz. 

A cheia do rio Mearim mobilizou a cobertura do Pedreirense no começo deste ano.  Atingiu sobretudo ribeirinhos, como Martinha Pereira, que ficou desabrigada. Na reportagem “Mearim: um rio que sempre volta”, o portal mostrou que a tragédia, no meio da pandemia, recaiu sobre as populações mais vulneráveis.

Em uma crise como a cheia do Mearim, a cobertura local ajuda a pluralizar narrativas, analisa Joaquim. “O território é um lugar vivo e tem maneiras próprias de falar sobre si. O olhar de fora é mais seletivo e traz consigo, por vezes, estereótipos que são fortalecidos na cobertura”, defende o jornalista do Pedreirense.


Castanhas

Interiorização do ensino 

Bons exemplos de jornalismo fora das capitais, como o Pedreirense, têm relação com a formação de jornalistas e com a interiorização do ensino superior no Nordeste. Mas este ciclo de desenvolvimento está comprometido. Uma reportagem da pernambucana Agência Retruco mostra que universidades do interior do Nordeste tiveram quase metade de bolsas de mestrado cortadas em apenas dois anos do governo Bolsonaro 🤦‍♀️.

Colaboração contra o trabalho infantil

São muitas as pautas que nos mostram o quanto é importante sair do olhar viciado de histórias apenas nas capitais e no Sudeste do país. A equipe do projeto independente Lição de Casa, que cobre Educação em tempos de pandemia com diversidade regional, publicou em março o especial multimídia Sem Recreio. Jornalistas de várias partes do Brasil, encontraram crianças e adolescentes de 20 cidades, metade em zonas rurais, que foram empurrados para o mundo do trabalho precoce, excluídos do ensino remoto nesta crise sanitária. Vai lá ler e ouvir o podcast. Tem relatos de cidades nordestinas. 

Podcast com tempero maranhense

Tem novidade nos tocadores! Foi lançado recentemente o podcast Fome de Ouvido, produzido no Maranhão por Flávia Melo, também fundadora do portal O Buliçoso. O primeiro episódio traz uma reflexão sobre o lockdown. 

Erramos

Tu já ouvisse falar de capacitismo? É a discriminação e o preconceito social contra pessoas com alguma deficiência. Na edição passada, usamos a expressão “ficar cego em tiroteio” para falar de como a ausência do jornalismo local pode nos deixar sem rumo. Mas a gente, que se preocupa tanto em ter uma linguagem inclusiva, errou por falta de conhecimento. É que alguns ditados populares, como esse, refletem preconceitos contra pessoas com deficiência. 

Quem nos deu o toque foi a jornalista pernambucana Débora Britto, de Recife. Leitora atenta da nossa newsletter 💜 , ela nos mostrou o trabalho de Ivan Baron (@ivanbaronn), um influenciador de inclusão nordestino. A gente acredita que o bom jornalismo deve ter a capacidade de se revisar. E aprender é sempre bom, né não? Obrigada, Débora! 


Notícias do Sertão 

E voltando ao jornalismo no interior, tem um dito popular que ensina: “quem é da aldeia, conhece os caboclos”. Quem nos lembrou dessa expressão foi o jornalista Machado Freire, fundador do impresso Folha do Sertão e do blog Folha do Sertão, veículos que cobrem o município de Salgueiro, no Sertão pernambucano. Para ele, “conhecer bem as pessoas e o lugar e ter independência” é a receita para fazer jornalismo de qualidade.

A Folha do Sertão já tem duas décadas. Cresceu ocupando o vazio noticioso deixado pelo fechamento das sucursais dos jornais das capitais. Chegou a uma tiragem de mais de cinco mil exemplares, distribuídos gratuitamente em escolas e no comércio local. Na pandemia, a tiragem foi reduzida para três mil. Os exemplares são impressos  no Recife, já que não existe uma gráfica em Salgueiro, então há o custo logístico, fora a remuneração da designer, que é a única ajudante de Machado. 

A Folha do Sertão e o Blog Folha do Sertão cobrem uma região estratégica, onde se  encontram a transposição do Rio São Francisco e os trilhos da Transnordestina. Os veículos fizeram denúncias importantes, como o caso do prefeito que foi preso por furtar água da transposição. Machado, inclusive, já sofreu perseguições por seu trabalho.

“Fui espancado por um aliado do prefeito, na década de 70, em plena ditadura, porque denunciei casos de estupro na cidade. Tive que passar dez dias fora, mas levantei a cabeça e voltei ao batente”, lembra. A  lei de imprensa e  a Lei de Acesso à Informação (LAI) são onde Machado busca "arrimo para mostrar aos políticos onde eles estão errados e defender as classes mais oprimidas e populares”. Gente, Machado é uma aula de jornalismo! Inclusive tem um episódio com ele no podcast Vida de Jornalista que tu podia sair dessa leitura correndo pra dar o play.

Violência contra jornalistas

Quem faz jornalismo independente e mais combativo fora das capitais quase sempre vira alvo de ataques. Aliás, a violência contra os jornalistas pipocou no ano passado, segundo relatório da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas).  No Nordeste, foram registrados 19 casos de violência contra jornalistas em 2020. Em setembro, o repórter independente Davi Alves foi espancado na cidade de Jeremoabo, no interior da Bahia. 

“Estava cobrindo uma denúncia de uso de recursos públicos para obras particulares, para a Rádio Alvorada FM, uma emissora comunitária, quando fui agredido pelo secretário de Infraestrutura e Obras do município”, contou Davi. Ele disse que o agressor nunca foi responsabilizado. 

A Associação Baiana de Imprensa lembra que, em muitas cidades do interior do Nordeste, algumas delas classificadas como desertos de notícias, os jornalistas estão mais “expostos à insegurança, à presença do narcotráfico e a uma pressão política muito forte”. “Somos perseguidos diariamente e até agredidos por simplesmente mostrar a verdade e expor ao povo”, comenta Davi. 

A gente fica por aqui na resistência e na esperança de dias melhores. Um cheiro e se cuida!

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