Retorno das escolas: uma pauta heterogênea

Edição nº 06 | Volta às aulas presenciais na pandemia e a necessidade de uma cobertura territorializada

Oi, tudo bem? Bom ter você aqui conosco. 

Passado esse Carnaval em casa (assim esperamos), fora política e vacina, o debate mais acalorado é a voltas às aulas pelo Brasil. A educação brasileira precisa de atenção. 

Crianças e adolescentes em todo o país estão distantes fisicamente das escolas há quase um ano e sofrem as consequências disso e da pandemia de maneira drástica, uns mais, outros menos. Muitas violações infantis não estão sendo vistas, dores não estão sendo acolhidas. 

O tema está em alta este mês porque muitas cidades já indicaram a retomada, ou não, das aulas presenciais e a evasão escolar está sendo sentida após o primeiro ano letivo pandêmico. 

Essa é uma pauta que jamais poderia ser tratada de maneira homogênea, pois cada comunidade escolar, cada um dos nove estados nordestinos possuem cenários plurais e diversos das unidades do Sul, Sudeste…

Portanto, essa curadoria hoje é ainda mais insistente com a necessidade da cobertura territorializada. Não dá para defender a retomada presencial das aulas ou nem cogitar essa hipótese sem saber de onde e de quais estudantes estamos falando. Não é possível entender a realidade educacional brasileira assistindo e lendo apenas os jornais produzidos em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília – e que se dizem nacionais.  

Então, vem com a gente acompanhar essa discussão junto aos veículos independentes do Nordeste?

Sirva-se!

Equipe Cajueira

Futuro incerto 

Aproveitando o gancho da podosfera, da qual falamos na edição nº 04, sugerimos que vocês escutem o episódio do podcast Prova dos Nove. Tem apenas 18 minutos e fala sobre o processo de retorno das aulas no Nordeste. O projeto sonoro do Nordeste Hub tem como proposta trazer "informações e análises feitas por nordestinos sobre o Nordeste".

Nesse programa, eles entrevistaram pais, psicóloga e pediatra para avaliar o peso entre os riscos de contágio do coronavírus e os benefícios para o desenvolvimento dos pequenos e para a preservação da saúde mental deles com a volta às aulas presenciais. 

Em Feira de Santana, na Bahia, o Blog do Velame está de olho na retomada das aulas que deve ser de modo virtual pelo menos até o final de fevereiro, após um decreto que proíbe shows e aulas na cidade e uma decisão do TJBA. No entanto, o ensino ainda está indefinido, a categoria docente não estava participando dos debates, nem as famílias das crianças e jovens matriculadas ou o Conselho Municipal de Educação, como diz a matéria do Velame. 

Na região do Cariri, no Ceará, as aulas retornaram em janeiro na modalidade híbrida, nas escolas privadas de ensino infantil e fundamental após todo esse tempo com unidades fechadas. Em matéria da Cariri Revista, a Associação das Escolas Particulares do Cariri diz que está seguindo os protocolos de segurança e que testou todos os professores de Crato e de Juazeiro, mas alguns pais ainda não se sentem seguros para mandar os filhos.

O Corre Diário de Teresina, no Piauí, publicou denúncia do sindicato dos trabalhadores da educação sobre o risco das voltas às aulas planejadas pela secretaria local. E só pra vocês acompanharem também, na região metropolitana da capital piauiense, o projeto Fala Dirceu, cobre o maior bairro da periferia, o Grande Dirceu.  


Castanhas

Ainda nas produções cearenses, mais um bom o conteúdo para ouvir, que foge um pouco da pauta factual aqui (de Covid-19 e escolas), mas tem a ver com educação: no episódio #30 de Kilombas Podcast, duas mulheres negras falam sobre a experiência de ser mãe e sobre as dificuldades que tiveram para conciliar a maternidade com os estudos. 

Ambas relatam o sentimento de culpa por terem que deixar os bebês em casa, uma para fazer faculdade e a outra para fazer o mestrado. Mesmo sabendo que eles estavam seguros e bem cuidados, elas sentiam como se os tivessem abandonando. 

E no episódio #29, o podcast focou no "desastre no Enem 2020", tratando dos relatos de aglomerações nos locais de prova e da abstenção recorde de 51,5%. Elas conversaram com uma estudante e um professor para saber: todos os estudantes tiveram condições de se preparar para o Enem em um ano tão atípico? 

E, ainda falando em educação e formação, olha essa oportunidade! O site Ceará Criolo divulgou um curso de inglês gratuito, on-line, feminista e afrocentrado do projeto Ela Mandela. Mulheres negras de todo o Brasil podem concorrer até 14 de fevereiro a 100 bolsas para as novas turmas do  “Winners”.


Projeto colaborativo para cobrir educação

O site Lição de Casa – uma investigação jornalística sobre os impactos da pandemia na educação brasileira – une 15 jornalistas do Brasil, sendo cinco do Nordeste, justamente para tratar a pauta com a diversidade que ela merece. Duas são aqui do time Cajueira (e elas fazem o merchan delas!). 

No ano passado, o grupo lançou, sem recursos financeiros, várias reportagens sobre o retorno das aulas – ouviram crianças, famílias, professores e especialistas no assunto dos diferentes estados do país. Com uma reportagem em quadrinhos, mostraram que 70% dos estudantes não acessavam as aulas remotas na Paraíba

Agora, eles preparam um grande material nacional sobre a exclusão escolar na pandemia e o trabalho infantil como causa e consequência. Sairá em março, fiquem de olho nas redes sociais @licaodecasa.investigacao ! Essa produção está sendo possível porque a equipe foi selecionada na bolsa da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação). Aliás, uma dica para quem está nesta luta por sobrevivência no jornalismo independente é se ligar nos editais ;) 

Quem também aproveitou essa parceria da Jeduca foi o Info São Francisco. O jornalista Antônio Laranjeira, que vive entre Sergipe e Bahia, já publicou uma  reportagem com apoio da bolsa no site sobre experiências em escolas públicas urbanas e rurais, relacionadas à inclusão e uso das tecnologias de comunicação geoespacial. 

Escola antirracista

E quem disse que a educação em meio aos caos do coronavírus não pode ter uma luz no fim do túnel? Ficamos felizes com a notícia que veio do coletivo Negrê à respeito de um projeto novo em Olinda, Pernambuco. Casa do Ofá é o novo espaço para o público infantil na cidade, criado pela pedagoga e contadora de histórias, Kemla Baptista. Promete ser a primeira escola antirracista de Pernambuco. 

A casa receberá gratuitamente crianças e famílias moradoras das comunidades do entorno do sítio histórico de Olinda e abrirá suas portas de forma gradativa, de acordo com o avanço da campanha de vacinação contra o Covid-19.

Aliás, o Site Negrê acaba de lançar sua campanha de financiamento coletivo. Bora fortalecer a mídia negra independente no Nordeste?

Denúncia

E, para fechar essa edição, lembramos que quem vigia as irregularidades locais são os veículos que estão no território, principalmente os independentes, sem cabresto. O Blog do Barreto, do Rio Grande do Norte, trouxe a história da ação de improbidade impetrada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a reitora da Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa), Ludimilla Carvalho Serafim de Oliveira. A denúncia: ameaçar uma estudante e espalhar informações falsas sobre outra; tentar silenciar e intimidar alunos contrários à sua nomeação; editar atos cerceando a liberdade de expressão e até retardar uma cerimônia de colação de grau para atender interesse pessoal. 

Ludimilla foi a terceira colocada na eleição para reitoria, mas acabou nomeada pelo presidente Jair Bolsonaro, mesmo contra a vontade da comunidade acadêmica. 

Pera, que não acabou. Ainda temos dois recadinhos: 

Um deles é pra dizer que, como somos foliãs natas, da região que tem os melhores carnavais do país e sim, também sofremos com a ausência da festa carnavalesca nas ruas. Mas nos solidarizamos apenas com quem não aglomerou e entendeu a importância de proteger vidas neste momento, guardando toda coceira no corpo e no pé pro ano que vem. 

Aliás, só as lives animaram o “não-Carnaval”, como disseram as manas do site Paraíba Feminina, né? Este ano, o tradicional festival de música Rec Beat, um dos maiores do país, que acontece sempre na folia do Recife, ganhou uma edição digital que foi um luxo! A pernambucana Revista O Grito! avisa que quem perdeu pode conferir a íntegra aqui

O outro recado é pra saber se vocês viram que a Agência Mural, um projeto que a gente é super fã, fez uma playlist no Spotify com os podcasts nordestinos que indicamos na nossa newsletter da edição #4? Amamos muito esse presente!

Pronto. "Para o ano", como diz o recifense, carnavalizaremos bem bonitas. Um cheiro!

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