“Nordesters” ou jecas mal educados. Afinal, quem é o nordestino?

Edição n° 05 | Discursos xenofóbicos mostram porque ainda precisamos combater estereótipos na mídia

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“Quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente”, canta o pernambucano Geraldo Azevedo. Pois fevereiro chegou e a gente tá quase morrendo de saudade do Carnaval, mesmo concordando com o cancelamento da festa. Também estamos sonhando com a vacina e dedicamos parte desta edição para falar da vacinação nos estados do Nordeste. Mas antes vamos comentar um assunto que tem tudo a ver com a Cajueira. Envolve capas de revistas, um reality show e imagens dos nordestinos na mídia. 

Provavelmente você viu a edição da revista Veja SP que chamou São Paulo de “capital do Nordeste”. Acharam que seria uma homenagem, mas recebemos como preconceito arraigado travestido de elogio. O título da capa e a reportagem em si generalizam um território com nove estados e suas respectivas capitais, todas elas muito mais elegíveis para um suposto alcance de capital da região do que uma cidade sudestina – ainda que essa tenha milhões de nordestinos entre seus habitantes. 

A revista tentou fugir do estigma do migrante nordestino sem instrução e subalterno, narrando histórias de pessoas que se deram bem profissionalmente na capital paulista. É que o Nordeste está na "moda" e os “nordesters”, como chamou o editor da publicação, são donos de lojas chiques, com educação superior, jovens startupeiros e descolados. Mas esse novo é, na verdade, a repetição da velha imagem desgastada do nordestino que vence na vida quando chega em São Paulo. E esse discurso não está posto, mas vem também nas entrelinhas escritas pelos que não se interessam em desconstruir uma lógica de superioridade sul-sudestina e insistem em nos representar como pobres que precisam ser salvos e tutelados, como reflete a jornalista pernambucana Fabiana Moraes nesse texto.

A reportagem da Veja SP deixou de fora a informação de que o Nordeste é a região com maior retorno de migrantes. Também não abordou as consequências da manutenção desses estereótipos, entre elas a exploração do trabalho dos nordestinos e o preconceito que muitos, chamados pejorativamente de paraíbas (até pelo presidente do país) e baianos, sofrem na capital paulista. Preconceito esse que tem origens raciais, pois somos a região mais negra do país, como pontuou Lenne Ferreira, editora do Alma Preta jornalismo em Pernambuco. Aliás, o pessoal do Nordeste Hub lembrou que, até a semana passada, o Dicionário Informal definia baiano como “pessoa brega que gosta de chamar atenção de forma ridícula”. O Google alterou o resultado em destaque no domingo (24).

O “olhar torto da mídia” para o Nordeste, como diz o historiador Durval Muniz, apareceu também na capa da Época deste mês, que estampa uma paisagem seca e miserável para falar da região. Não foi a primeira publicação sediada no Sudeste que recorreu ao Nordeste quando precisa falar de bolsa família e auxílio emergencial, como se nas periferias de São Paulo ou do Rio de Janeiro a fome também não existisse. E como se a gente já não estivesse exausta, a xenofobia ganhou repercussão em rede nacional, no reality show da TV Globo, o Big Brother Brasil. Rolou uma onda de repúdio na internet contra a estigmatização dos nordestinos como mal educados. Até quando? 

Não somos do lugar dos esquecidos, nem da nação dos condenados, como cantou o cearense Belchior. Somos noves estados com economias diversas, polos de tecnologia, centros universitários de referência, produção intelectual e imensa importância histórica.

É preciso falar do Nordeste sem perpetuar  preconceitos e reforçar relações de exploração. E nós da Cajueira acreditamos que esse processo passa necessariamente pela diversidade de vozes no jornalismo. Ou seja, o Nordeste pelos nordestinos. 

Sirva-se!

Equipe Cajueira

Fura-fila, vacina e Rodrigo Constantino

A lista dos fura-filas da vacinação no Nordeste inclui até prefeitos. Em Feira de Santana, na Bahia, uma fisioterapeuta, esposa de um médico que é dono de um hospital pediátrico e não está no grupo prioritário, se vacinou antes dos profissionais da Atenção Básica de Saúde.  A reportagem do Blog do Velame foi a primeira denúncia recebida pela Procuradoria Geral do Município e, depois dela, a prefeitura local divulgou a lista de hospitais particulares que receberam doses da vacina. 

Já em Natal (RN), um médico prescreveu Azitromicina, Ivermectina e, pasmem, vídeos dos jornalistas conservadores de direita Rodrigo Constantino e Alexandre Garcia, sobre “tratamento precoce” de Covid-19, em uma receita para paciente com sintomas da doença. A reportagem do Saiba Mais mostrou que o médico foi candidato a vereador em Natal pelo PRTB, partido do vice-presidente Hamilton Mourão e que defende Bolsonaro nas redes sociais. 

E por falar em desinformação, a agência piauiense de checagens de fatos, Coar, desmentiu um vídeo que mostrava uma profissional de saúde de Quixadá, no interior do Ceará, tomando uma vacina com uma seringa vazia. A agência também mostrou que é falso o vídeo de um enfermeiro sobre uma morte que teria sido causada pela vacina. 


Castanhas 

Para continuar refletindo sobre Nordeste, mídia e jornalismo no Brasil de forma geral, recomendamos uma boa olhada na pesquisa do Atlas da Notícia, que acabou de sair. O Atlas é um mapeamento do jornalismo no Brasil feito pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), mantenedor do Observatório da Imprensa, em parceria com Volt Data Lab.

E, voltando à cobertura da pandemia, duas pesquisadoras cearenses foram entrevistadas pelo Podcast Malamanhadas em um episódio sobre representatividade das mulheres na ciência, que também fala sobre negacionismo e produção científica no período da pandemia. 


Falta transparência na vacinação 

Povos tradicionais, como quilombolas e indígenas, fazem parte do grupo prioritário de vacinação. A Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará (OAB-CE) quer garantias de que essas populações serão imunizadas, registrou o coletivo de comunicação Ceará Criolo. O estado conta com 85 comunidades remanescentes de quilombo

A Agência Tambor também vem cobrando a vacinação de indígenas no Maranhão, que faz parte da Amazônia Legal. “Dos mais de 19.525 indígenas que preenchem os critérios da primeira fase de vacinação, 5.666 tinham sido vacinados”, disse o secretário estadual de Direitos Humanos Francisco Gonçalves, em entrevista no dia 29 de janeiro. A Tambor também fez um alerta importante sobre a falta transparência nas campanhas de vacinação dos estados. 

Vacina para quem precisa

Se tem algo que está salvando a internet são as fotos de pessoas dos grupos prioritários sendo vacinadas. No mês da visibilidade trans, a primeira mulher transgênero negra vacinada no Brasil foi uma alagoana. Monalisa Rocha, 45 anos, trabalha há um ano e meio na linha de frente de uma unidade de saúde em Santa Luiza do Norte (AL), que recebe pacientes com Covid-19. “Foi uma sensação de alívio e esperança”, disse para o site Eu Fêmea.

Outra informação que a gente adorou foi dada pela Agência da Boa Notícia, um site cearense cheio de informações para renovar esperanças na humanidade. Eles registraram a vacinação no abrigo de idosos Sagrado Coração de Jesus, no município de Sobral. Conteúdo que aquece o coração, né?

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