Nordestinas na ponta de lança do jornalismo pela igualdade de gênero

Edição n° 07 | Mulheres se destacam no comando de projetos feministas independentes nos estados do Nordeste

Oi, tudo bem? Já comeu teu cuscuz hoje? 

Já ouvisse falar que cuscuz é melhor do que muita gente? É um alimento nordestino versátil e forte, que rendeu assunto nas redes nos últimos dias. Nesta edição, vamos falar de projetos jornalísticos comandados por mulheres dos estados do Nordeste – que sabem o poder de uma cuscuzeira – para abrir  o março feminista.  

Sabemos que a pandemia aprofundou desigualdades no Brasil – de gênero, de raça, de classe e também regionais. Mulheres, negras, pobres, nordestinas e nortistas sentem o maior peso da crise. Estão mais expostas ao adoecimento, ao desemprego e à violência doméstica. Tudo isso agora sem auxílio emergencial, nem vacinas, que são as principais reivindicações de todas as brasileiras neste 8 de março, dia internacional de luta da mulher. 

Trazer diversidade regional para pautas de igualdade de gênero e para propostas  feministas de jornalismo é reconhecer as várias realidades das mulheres e dos seus territórios brasileiros. 

Por isso, a  gente  conversou com algumas jornalistas  à frente de iniciativas independentes nos estados do Nordeste. Elas falaram sobre os desafios para tornar as coberturas mais representativas e plurais.  

Sirva-se!

Equipe Cajueira

Mulher negra, nordestina e jornalista

Mídia negra e nordestina feita por mulheres. Tu conhece alguma iniciativa? Temos vários projetos para te apresentar. 

O Kilombas podcast debate pautas de interesse da população negra, que representa 75% dos habitantes da região. Alice Sousa e Letícia Feitosa, duas mulheres negras cearenses, apresentam os episódios semanais. “Pautas que interessam às negras nordestinas são prioridade”, dizem. Um exemplo é o episódio onde elas falam dos estigmas que essas mulheres carregam, como a imagem de sofredoras, batalhadoras e outros adjetivos que só perpetuam o racismo. 

Elas já produziram mais de 30 episódios, sem apoio de financiadores. Então, é um desafio “rentabilizar o trabalho e conciliar a produção dos debates de fôlego com outras demandas profissionais.”

Mais um projeto independente que a Cajueira  pinçou é o site Negrê. O portal de notícias e mídia negra foi idealizado em 2018 pelas jornalistas negras cearenses Larissa Carvalho e Sara Sousa, para “amplificar múltiplos olhares sobre a região”. É o primeiro portal de mídia negra nordestina do Brasil, segundo as fundadoras.

“O negro nordestino é muito invisibilizado. Além de sofrer racismo, sofre xenofobia”, comentou Larissa Carvalho, uma das fundadoras do Negrê, num debate com Adriana Pimentel, da Agência Eco Nordeste (falamos desse outro projeto mais pra frente). 

E tem ainda a hashtag #blackttnordestino, pensada e idealizada pela socióloga cearense Stephany Sousa, que promove conteúdos e aquilomba a população negra do Nordeste no Twitter. Dá uma pesquisada na ‘tag’ pra descobrir perfis de mulheres incríveis 😉

Não somos um recorte. Somos maioria

Na Bahia, o dia 8 de março foi a data escolhida de lançamento de uma mídia negra feminista em 2012. Larissa Santiago é uma das criadoras do Blogueiras Negras, que surgiu a partir de um fórum de discussão de atividades para o dia de luta da mulher. 

O Blogueiras Negras visibiliza a produção de autoras negras, jornalistas ou não. “Questões de gênero e raciais não são um recorte. Precisam ser encaradas de maneira basilar”, disse à Cajueira.  Larissa lembra que as mulheres negras são 38% da população brasileira e as pessoas negras, 55,8%. "Somos maioria. O jornalismo precisa levar isso em consideração.”

Nordestinizando narrativas 

Jornalista negra e pernambucana, Lenne Ferreira comanda a redação do Alma Preta jornalismo no Recife. Embora o projeto não tenha nascido no Nordeste, eles decidiram  abrir espaço para uma cobertura mais diversa do ponto de vista regional. “Não faz sentido fazer mídia negra no Brasil sem olhar para o Nordeste”, argumentou Lenne. Ela defende que o jornalismo independente não pode reproduzir práticas da mídia hegemônica, que produz o apagamento da região. 

Lenne não chegou nesse debate agora. Ela é fundadora do coletivo de jornalismo Afoitas, formado por jornalistas negras. No Alma Preta, diz que sua missão é “apresentar um Nordeste plural, diverso e complexo”. “Contar histórias com sensibilidade, de maneira que dignifique e mostre o quanto o Nordeste influenciou e influencia até hoje a produção do conhecimento e da identidade brasileira”.


Castanhas

  • Uma jornalista negra e pernambucana  que a gente admira demais é Fabiana Moraes. Sempre vale ouvir e ler tudo que ela escreve, especialmente  sobre mulheres nordestinas na mídia. Em sua coluna  publicada recentemente no The Intercept Brasil, ela disse: 

    Há anos sou chamada por pessoas brancas para participar de debates porque “precisam de uma mulher negra à mesa”. Me dizem isso, e a cara nem treme. Abandonei uma entidade nacional de jornalismo quase 100% branca depois de compreender que, lá, minha opinião, na verdade, não valia muito. Mas era legal ter “diversidade” na diretoria. Chama aí uma mulher negra do Nordeste. É muito cansativo lutar contra sua própria instrumentalização.

  • O coletivo Firminas é um portal independente de notícias sobre o universo feminino que foi lançado este mês. É feito por mulheres de vários estados, incluindo jornalistas de Pernambuco e da Paraíba. Viva o jornalismo independente! ✊


Feministas na podosfera

Vocês já perceberam que a gente adora ouvir podcasts nordestinos, né? Tanto que já dedicamos uma edição todinha pra eles. E quanto mais a gente cavuca esse universo, mas tem pra descobrir. O Malamanhadas, por exemplo, é um podcast do Piauí que já apareceu por aqui porque sempre traz debates legais. 

Os episódios quinzenais falam sobre protagonismo e direitos das mulheres. "Mais do que apenas um trabalho, sinto que tenho uma rede que me sustenta. Isso foi muito forte e perceptível no meio da pandemia”, comentou Aldenora Cavalcante, uma das fundadoras.

O Malamanhadas tem uma campanha de financiamento coletivo que já consegue cobrir os custos de produção. Hoje elas também são uma produtora que faz consultoria para criação de podcasts. “Estamos produzindo atualmente dois podcasts do Piauí formados por mulheres". São eles: Debaixo do Cajueiro e o Entretidas. A gente adorou os nomes!

Não vão nos silenciar

Lembra da Eco Nordeste que falamos aqui no começo ? Em 2018, a jornalista Maristela Crispim foi demitida de um jornal em Fortaleza (CE), depois de 25 anos de profissão, boa parte deles no jornalismo ambiental. Pouco mais de um mês depois da demissão, a Eco Nordeste já estava no ar. 

Hoje a agência de notícias fundada por Maristela também tem uma newsletter e um podcast chamado Ecocast Nordeste. São mais de 18 pessoas na equipe, que tem maioria feminina. Apenas três homens. 

No ano passado, a Eco Nordeste fez uma parceria com sete veículos, incluindo a agência pernambucana Marco Zero Conteúdo, e iniciativas de outras regiões, para produção de um material especial multimídia com levantamento de dados super importante sobre violência de gênero na pandemia.  

Mais recentemente, junto com a Marco Zero, de Pernambuco, a Saiba Mais, do Rio Grande do Norte, e o blog Escreva Lola Escreva, do Ceará, a Eco Nordeste divulgou uma reportagem que revelou o silenciamento da jornalista Amanda Audi . Vítima de violência sexual, Amanda foi calada pela Justiça por resultado de uma ação do professor da UNB Alexandre Andrada, o homem que ela acusa de ser o agressor. É mais uma história que mostra a urgência  de nos mobilizarmos pelo fim da violência contra as mulheres.

A gente fica por aqui, mas sem deixar de dar aquele velho recado: busque, siga e apoie projetos de jornalismo independente feitos por mulheres no Nordeste. 

Justiça para Amanda. Justiça para Marielle. Justiça a todas as nordestinas e demais brasileiras vítimas do machismo opressor. 

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