Estado por estado porque o NE não é um único bloco

Sete jornalistas apresentam o jornalismo independente em Alagoas

Opa, tais aonde? Esperamos que estejas muito bem e com um tempinho pra conhecer mais do Nordeste do jeito mais doce, com a Cajueira. Senta esparramado aí que hoje, além de curadoria especial, tem entrevistas e conteúdo exclusivo pra tu entender um pouquinho mais da diversidade nordestina. 

Vamos dar mergulhos profundos no jornalismo independente feito em cada um dos nove estados do Nordeste. A ideia é perceber cada ecossistema de produção jornalística a partir da experiência dos produtores de conteúdo e dos veículos locais de comunicação – que pode e deve ser visto com amplitude nacional.

Daremos a largada com Alagoas e, para isso, mapeamos ao menos sete organizações e portais independentes: Agência Tatu, Repórter Nordeste, Mídia Caeté, Portal Eufemea, Portal Acta, Olhos Jornalismo, Ponto de Análise. Procuramos representantes de cada um deles para trazer aqui um pouco de suas visões alagoanas. 

Foi depois de uma greve de jornalistas no estado, em 2019,  que surgiram novos grupos para apostar no caminho das reportagens independentes. O momento podia ser apenas de demissões em massa, retirada de direitos, crise do mercado, mas virou uma motivação para dar um basta no jornalismo com amarras, com exploração, com segundas intenções. E abriu-se espaço para registros de profundidade, de reflexão, que defendem os direitos humanos. 

Sirva-se!

Alagoas independente

Pois, pronto, chegou a hora de tu conhecer o que pensam, o que comem, o que falam e como sobrevivem alguns dos jornalistas independentes de Alagoas. Eles estão produzindo conteúdos relevantes para nosso país a partir de seus territórios e tentando encontrar caminhos na independência do jornalismo autoral. Cabe a nós valorizar e apoiar. 

O Repórter Nordeste começou há dez anos, primeiro como Repórter Alagoas. “Percebemos na época que existia um vácuo para iniciativas mais independentes no jornalismo local. No começo, sentimos que os outros nos tratavam de maneira diferente, mas, aos poucos, nosso trabalho falou mais alto”, contou o jornalista Odilon Rios.

Odilon foi correspondente por 10 anos de jornais como O Globo, e lembra como as grandes redações no eixo Sudeste-Sul viam e veem Alagoas como “parte do Norte brasileiro”. Ele lembra que já tivemos alagoanos como presidentes da República e do Senado.

“A mecânica política e econômica locais têm características muito peculiares, porém, para sudestinos ou sulistas, apenas eles sabem falar de política ou economia do Nordeste ou nacional”, afirmou o jornalista e mandou uma direta: “nossos colegas do jornalismo independente (no Sudeste-Sul) ainda nos enxergam de cima para baixo, eles nas caravelas ou vestidos de bandeirantes e nós com pouca roupa e esperando sermos salvos".  

De marechais à Caetés

Em um 2019 muito difícil para os jornalistas alagoanos, com grandes empresas se reunindo para tentar reduzir em quase a metade o piso de jornalistas, a união para construir uma greve foi a solução. E o movimento ecoou. "Garantimos os direitos trabalhistas na Justiça, conquistamos o apoio da sociedade e, de quebra, renovamos a esperança na possibilidade de fazer jornalismo sem os barões da mídia”, destacou o jornalista Caio Lorena, recordando que foi nesse contexto que surgiu a Mídia Caeté - idealizada por um grupo de jornalistas para ser uma plataforma multimidiática, sem fins lucrativos voltada à reportagens especiais e investigativas, com independência editorial. 

Quem é de fora já deve ter ouvido a expressão “terra dos marechais” em referência a Alagoas. Mas Caio pontua que eles caminham em outra perspectiva: a da terra dos indígenas Caetés (olha a inspiração para o nome aí), dos Quilombolas, “dos povos que – por sobrevivência, dignidade e liberdade – marcaram esse solo com passos de resistência”. Os jornalistas da Mídia Caeté encararam, então, o papel de denunciar injustiças, (re)conhecer e visibilizar problemas sociais, e fiscalizar os poderes, independentemente de quem sejam os sujeitos que o exerçam.

A Mídia Caeté levanta importantes debates, como essa entrevista com Pedro Montenegro, Coordenador de Estudos, Pesquisa e Educação de Direitos Humanos do Centro de Defesa Zumbi dos Palmares, que contesta a forma leviana como o trabalho infantil foi defendido após a conquista da medalha pela maranhense Rayssa Leal nas Olimpíadas.

“Para que possamos cumprir essa função, é preciso que tenhamos uma independência editorial que não sujeite nosso conteúdo ao crivo publicitário, ou mesmo a influências políticas próprias de um patronato”. 

No primeiro ano, cada um dos integrantes fez um grande esforço para a sobrevivência da Mídia Caeté. “Entendemos que é importante que possamos nos unir para buscar formas em que este tipo de jornalismo – socialmente comprometido e com transparência editorial – tenha bases seguras de sustento, de crescimento, de condições de trabalho”, defende Caio.  


Demanda feminista

O Portal Eufemea nasceu de uma necessidade de falar sobre mulheres e para mulheres. “Somos o primeiro site de conteúdo feminino da região”, comentou Raíssa França, à frente da iniciativa. É um portal que também tem o objetivo de empoderar, de ajudar, de informar e de acolher. Segundo Raíssa, o Eufemea tem tido uma aceitação muito boa e as reportagens estão sendo reproduzidas por outros veículos. “Acredito que as produções jornalísticas de Alagoas cresceram e conseguiram ganhar destaque por todo país. Isso é positivo porque nosso estado consegue mostrar que tem muito potencial”.

Para ela, o jornalismo independente é importante e traz um diferencial enorme, “mas a falta de apoio financeiro é outro problema porque acaba que quem está à frente da mídia independente precisa se virar nos 30".

Por falar nisso, a jornalista alagoana Mariana Rodrigues sabe bem como é ter que “andar com as próprias pernas”. Deixou a mídia tradicional e está encarando investir no próprio site, o Ponto de Análise sobre segurança pública, Justiça e direitos humanos. "Boas pautas precisam, muitas vezes, de tempo para pesquisar e estudar o tema, de viagens, de boas fotografias, de uma boa edição audiovisual e entregar isso com qualidade, em tempo hábil, que a internet exige, é difícil, porque em muitos momentos o jornalista independente vai ter que fazer tudo sozinho". 


Olhar outros caminhos e inovar 

A turma do Olhos Jornalismo apostou em uma produção pautada pela pluralidade de vozes e pelos direitos humanos. “Acho que tem havido uma abertura maior para as iniciativas  jornalísticas de Alagoas/Nordeste. Tem se criado toda uma rede que fortalece ainda mais esses veículos, aumentando o debate sobre a produção do jornalismo local”, indica o jornalista Jean Albuquerque, também reforçando o desafio de conseguir se manter ativo, produzindo e fazendo com que o projeto seja autossustentável em um outro modo de fazer jornalismo. 

Até aqui falamos de jornalistas que atuam sobretudo na escrita, ainda que nativos digitais. Mas há em Alagoas um grupo que nasceu também em 2019 da união dos demitidos de duas emissoras de TV, o Portal Acta. “Somos o mais tradicionais, mas com o diferencial da interação com a audiência (com produções audiovisuais no Instagram e no Youtube). O público percebeu a diferença e acompanhou a gente”, explicou um dos produtores do portal, Derek Gustavo. 

Para Derek, desde que os veículos independentes começaram a atuar em Alagoas, as pessoas perceberam a importância dessa voz a mais. “Sem o cabresto das empresas tradicionais, temos conseguido abordar assuntos que antes não conseguíamos".

Jornalismo de dados

A Agência Tatu começou em 2017 na Universidade Federal de Alagoas a partir do projeto de TCC do Lucas Thaynan, tendo sido co-fundada por Graziela França e Micaelle Morais. Eles sequer tinham ideia de que a iniciativa era a primeira do Nordeste e umas das poucas do país com foco em produção de conteúdo de Jornalismo de Dados. Estavam apenas apostando muito no interesse que tinham pela área ainda inexplorada. Em 2017, eles já ganharam um prêmio de jornalismo local, conquistado na categoria estudante com uma matéria baseada em dados e relatos dos entrevistados.

“Percebemos uma leve mudança no conteúdo de alguns sites de notícia locais, que passaram a introduzir um pouco de alguns elementos que a Tatu traz. Hoje, a gente vê inclusive veículos independentes mais novos do estado explorando o Jornalismo de Dados com mais frequência”, percebeu Graziela. 

Na pandemia, eles foram um serviço fundamental de informações sobre a COVID-19 em Alagoas, muito acessado e repercutido. Desenvolveram projeto de checagem e combate às fake news, em parceria com o governo estadual, e criaram uma plataforma de monitoramento dos casos de coronavírus. Tudo com acesso gratuito para população. 

Em uma de suas reportagens mais recentes, o site mostrou qual foi o desempenho do Brasil em cada uma das Olimpíadas que o país participou. A base de dados e os documentos utilizados na reportagem estão todos disponíveis para quem quiser fazer seu próprio levantamento.

O que mantém o projeto são os recursos conquistados em editais, mas ainda existem desafios. “É muito diferente quando você vê uma produção de conteúdo do Sudeste falando de algo daqui, porque nem sempre eles sabem da realidade, não falam com a mesma linguagem.  Defendemos muito a produção do jornalismo local”, argumentou Graziela.

Nós assinamos embaixo, Grazi! 

Chorastes? rsrs… É bonito demais ler tudo isso é, né não?

Que honra a nossa trazer essas vivências de Alagoas aqui na Cajueira e junto com nossos leitores entender um pouco mais de um estado por meio de um jornalismo importante no nosso país e pelos que estão resistindo no território.

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