Atenção, o sudestino está descobrindo que é sudestino

Não é preconceito reverso, é reparação histórica

Oi, minha gente, tudo certinho? 

A gente começa esta edição com uma novidade do pipoco! Agora a Cajueira faz parte de uma rede de nove organizações jornalísticas de estados do Nordeste que foi selecionada pelo edital Google News Initiative 2021 para botar em prática um projeto massa de inclusão. Já pensasse? Intitulada "Acessibilidade no jornalismo, um problema que ninguém vê", a proposta une jornalistas independentes e a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) para desenvolver soluções tecnológicas no meio digital que enxerguem todos e todas na sociedade brasileira. E a atuação dessa rede nordestina está só começando, viu? Pense no fogo que a gente tá!

Em breve vamos contar mais detalhes, mas já aproveitando o gancho do tema inclusão e Nordeste, a gente começa essa edição metendo o pé na cara da xenofobia.  Todo mundo que nasceu no Nordeste já foi alvo de preconceito por sua origem. Pode apostar! Mas os ataques nem sempre são explícitos. O racismo e o assédio moral podem estar nas entrelinhas de um comentário travestido de elogio sobre nosso sotaque, em representações caricaturadas e em afirmações generalistas, que tentam reduzir a diversidade dos nossos nove estados a uma mesma coisa. 

Oculto ou não, o discurso xenofóbico ainda é lamentavelmente comum aos nossos ouvidos, como sempre falamos aqui. O incômodo e a dor que isso causa talvez só fique claro para alguns quando os papéis se invertem. Essa é a genialidade contida na sátira “Sudestino” do Porta dos Fundos. No vídeo, a jornalista e atriz pernambucana Ademara Barros assume o discurso de superioridade e ofensivo, geralmente direcionado por sudestinos e sulistas aos nascidos no Nordeste. 

Teve sudestino que se doeu pela reprodução de estereótipos. Teve gente lançando a braba de “preconceito reverso” nas redes, no melhor estilo Marcelo Tas (vergonha!). O termo sudestino, aliás, parece que só agora foi descoberto por boa parte dos naturais da região. E o mais curioso é que as palavras “sudestino/sudestina”, embora não tão populares na mídia, vêm sendo impulsionadas na internet por influenciadores de fora do eixo Sul-Sudeste, incluindo a própria Ademara, desde 2018 (vale olhar esse fio). Inclusive a poeta pernambucana Bell Puã venceu o campeonato brasileiro de poesia falada, Slam BR com esses versos: 

“Cês tão ligado que o que nós chama Nordeste, na verdade, foi inventado. Porque tu Paulista não se considera sudestino?

Mineiro e carioca tem identidade própria. 

Mas é tudo a mesma ‘merda esses tal de nordestino’.

Só para começo de conversa Nordeste tem nove estados,

Nem vem dizer que não sabia

Sul e Sudeste tem IDH foda, mas não tem aula de geografia?

É de ter um ataque, ator de novela quando imita o nosso sotaque.

É que pra vocês nós é caricatura. 

Não importa de onde eu venho me chama de Paraíba”

Será que precisava um grupo sudestino de humor validar o termo para ele fazer sentido?

Apesar disso, nos sentimos representadas pelo debate que o vídeo provocou. Combater estereótipos nordestinos e a hegemonia do Sudeste-Sul na mídia é a nossa pegada, por isso a gente aplaude quando a arte, o humor e a comunicação provocam reflexões sobre preconceitos regionais. Se você também acha isso importante, nos ajude a continuar derrubando preconceitos e a espalhar a palavra do jornalismo independente dos nove estados do Nordeste . Apoie nossa campanha de financiamento e apresente nossa curadoria pra todo mundo que precisa conhecer mais a diversidade da região e do Brasil. Tem ainda a chave pix (cajueira.ne@gmail.com) e a gente adora receber doações únicas com recadinhos doces.

Então, só pra ficar desenhado: o problema não é falar nordestino, é generalizar e estereotipar; não é amar as praias do Nordeste, é sempre dizer isso sem saber nem diferenciar os estados. E pra não deixar conversa pela metade, não tem isso de preconceito reverso não, visse? É reparação histórica mesmo. Por sinal, a gente acha o sotaque sudestino o mais fofo do Brasil 😉

Sirva-se!

Nordeste e os jogos olímpicos

Tá no espírito das olimpíadas de Tóquio? Temos 47 atletas nordestinas e nordestinos disputando medalhas. Essa é a maior delegação da região nas edições “estrangeiras” do evento. Se fosse um país, o Nordeste teria a 55º maior delegação da disputa, segundo o NE45, que iniciou uma série de quatro reportagens especiais sobre o  Nordeste e os Jogos Olímpicos. Olha só essa geografia da competição, tá demais!

Padre cearense perseguido por bolsonaristas

O caso do padre Lino Allegri, de Fortaleza, ganhou repercussão depois que saiu no jornal O Globo. Mas a história veio à tona no blog independente Escrivaninha, que é cearense. O blog divulgou um áudio de whatsapp onde um empresário bolsonarista ataca o religioso Oliveira, que é chamado de “comunista”, “canalha”, “picareta”, “imbecil” e “safado”. O padre Lino, que tem 82 anos, solicitou inclusão em um programa de proteção de defensores de direitos humanos.

Jornalismo de dados fora do eixo Sul-Sudeste

Tá chegando mais um projeto de jornalismo de dados feito no Nordeste. A Catolé é uma newsletter quinzenal que vai falar de jornalismo, dados públicos e transparência em Pernambuco. A autoria é do jornalista Paulo Veras, que pretende estimular essas pautas fora do eixo Sul-Sudeste. Vida longa!

Os números geram denúncias importantes. Recentemente, a reportagem da Marco Zero Conteúdo descobriu que as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) se tornaram, na pandemia de coronavírus, depósito de vítimas fatais da covid-19. Pelo menos 1.019 pessoas diagnosticadas com a doença morreram à espera de uma UTI, nas 15 UPAs de Pernambuco, segundo os dados obtidos via Lei de Acesso à Informação.


Castanhas

Dados

Falando em dados, o projeto Cidades Abertas, que trata sobre a transparência nos municípios, deu origem ao site Dados Abertos de Feira, com informações importantes sobre a cidade de Feira de Santana, na Bahia.

Premiação

O especial Quilombo Acadêmico do Ceará Criolo, sobre o efeito da política de cotas no ensino superior, é um dos finalistas do 4º Prêmio ABMES de Jornalismo. Já estamos na torcida!

Perseguição 

A jornalista e docente da Universidade Federal do Ceará, Lola Aronovich está sendo processada pelo economista e professor da UNB Alexandre Andrada, após reproduzir um texto das jornalistas Jess Carvalho e Rosiane Correia de Freitas sobre o caso da jornalista Amanda Audi e o processo de revitimização das mulheres que denunciam violência sexual no Brasil. Nossa solidariedade.

Para ouvir 

O Podcast Debaixo do Cajueiro está com uma programação especial para o #JulhoDasPretas. Elas já lançaram episódios sobre afroliteratura e afrocentricidade.  Sem sair do teu tocador preferido, vale ouvir esse episódio do Kilombas Podcast que pergunta: quais suas pequenas alegrias? No meio deste caos, nós, da Cajueira, respondemos que nos faz um bem danado falar com vocês por aqui 🧡

Revistas nordestinas

A Revista Revestrés divulgou um link para acesso gratuito às quatro edições mais recentes. E a revista sobre artes visuais Propágulo fez um post perguntando de onde são os conhecimentos que a gente acessa? Aliás, quantas revistas nordestinas você já leu? 


Violência no campo e na cidade

No Maranhão, a escalada da violência no campo foi tema da entrevista do Tamborcast com o advogado e militante de direitos humanos Luis Antonio Pedrosa. Já em Fortaleza, o Bemdito revelou com exclusividade o racha entre membros do Comando Vermelho (CV). Os assassinatos atribuídos ao conflito se espalham pelo estado. Na capital cearense foram pelo menos três casos. 

Independência na Bahia

A independência do Brasil não nasceu às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo. O podcast Calumbi mostra que, na verdade, teve muita luta na Bahia para que essa liberdade se consolidasse de fato. O mestre em História Social Ricardo Santana, o gestor cultural Felipe Dias e a historiadora Gabriella Melo contam essa história que pouca gente conhece.

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